As primeiras contrações começaram enquanto todo mundo dormia. E não era esperado causar surpresa porque, por alguma razão que deve ter até mesmo uma componente biológica, isso sempre foi assim.
Mas aquela Aurora não queria se deixar nascer. Contraía-se vez ou outra, como que recordada de que não tinha escolha. Mas retardava-se. Sabia que não tinha opção, sabia que em breve estaria feito, mas ainda assim se contorcia e se imobilizava como se coubesse a ela decidir. Enquanto se escondia era escuro, e ela se sentia protegida. Mas sabia que por pouco tempo.
Teimou até perder. E amanheceu pálida e exausta. Olhando para ela assim, branca e como que embebida em mormaço, ninguém ousaria supor que se descortinaria em Sol ao meio dia.
Por quê, Aurora? Por quê você se recusa a nascer? Não seria melhor aceitar o fluxo e deslizar suave pelo canal de nuvens brancas decorando um céu azul? Por quê você escolhe assim difícil? Por quê? Se sabe que nascerá de qualquer jeito porque relutar e se furtar à beleza que poderia ser sua? Por quê se exaurir e chegar assim tão baça e angustiada?
Ah, Aurora... Abandona esse remorso e nasce! Nasce sem culpa! Afinal, até às 10h eu te prometo que o Sol secou as manchas do sangue frio e transparente da Noite que você matou.