Canetinhas: uma saudade

Saudade da canetinha da escola. Aquela que servia para contornar as coisas na época que a Tia mandava a gente contornar antes de colorir. Não sei se isso é coisa de Três Marias, mas teve tempo de canetinha ser proibida na escola. Era uma lástima. Porque tinha que ficar apertando o lápis de cor com muita força. Como criança é tudo nojenta uma inteligência só, a gente molhava a ponta da caneta com cuspe. Depois dava o desenho pra mamãe... Lembro um dia, no Pré da Dona Cida (ela era Dona, não era Tia) apareceu uma turma vendendo aqueles kits cheios de inutilidades que a gente comprava pra ajudar os hemofílicos (oi?) e tinha uma daquelas canetas tipo tinteiro. Foi a glória do senhor em nossas vidas. Pessoalmente eu não curtia contornar. Desperdício... Ah se eu soubesse que tantos anos depois tudo que eu ia querer pra mim era um cadinho mais de contorno.

"olha, dona Cida, desenhei uma metáfora com canetinha!"
Porque é isso que falta e faz falta. Um pouco mais de contorno. Quem dera agora eu ter uma canetinha pra sair contornando tudo. Cansei desse esfumaço. Cansei de maquiagem, quero brincar de desenho do Pré da Dona Cida. Ao menos um pouquinho. Saber o que é cada coisa e onde ela começa e termina: onde termina a obstinação e começa a teimosia? Onde é que é orgulho besta e onde é amor próprio? E principalmente (se me dessem um só, eu escolheria ele!) onde é que é força e onde é que é covardia?

Tudo que eu menos queria na vida era acreditar que é preciso ser muito forte para ser um covarde. Mas com provas tão contundentes, vai ficando cada vez mais difícil...

2 comentários:

Vitor Rocha disse...

Esse seu post me lembrou disso aqui:

http://casadebabayaga.blogspot.com/2007/09/os-desastres-de-sofia-clarice-lispector.html

Fique lisonjeada: é um dos contos que mais gosto nessa vida.

Vitor Rocha disse...

Eu só queria fazer um elogio...