quinta-feira, 10 de novembro de 2011

(sem título)



 "É que ela sentia falta de encontrar-se consigo mesma e sofrer um pouco é um encontro."


Quando abriu os olhos pela manhã, foi exatamente como se tivesse chutado a beirada da cama com o dedo mínimo do pé. Ficou ali, por alguns segundos, entregue à espera mais injusta que existe. Porque quando você chuta a beirada da cama com o dedo mínimo do pé, a dor (insuportável dor nossa de cada dia) demora alguns instantes para percorrer a espinha e estimular seu cérebro. E tudo o que você pode fazer é esperar. Esperar doer.

Mas a dor não veio. Como se alguém tivesse cortado a espinha com uma tesoura. Arregalou os olhos e se assustou ao se dar conta de que o estímulo tinha sido realmente cortado por alguém. E não pôde conter a surpresa de se deparar com a Patrícia Pequena ali parada. Com uma tesoura na mão.

Dias atrás ela tinha aparecido. Na verdade, tinha sido surpreendida espreitando como um bicho. Clandestina como ela sempre sonhara ser. Mas a Patrícia Grande não tinha feito muito caso dela. Ao contrário, tinha tentando fingir não ter visto nada e quando foi surpreendida, afugentou a outra com uma hostilidade branda e desnecessária.

Mas naquela manhã a Patrícia Grande tinha batido o dedinho na quina da cama. E ainda não doía. Então ela fez aquilo que perecia impossível: estendeu sua mão e deixou que a Patrícia Pequena a segurasse com sua pequena mão quente. E despindo-se daquele peso transparente que costumava levar consigo, a Patrícia Grande deixou-se conduzir sem mais perguntas. Naquele dia fariam tudo exatamente como a Patrícia Pequena quisesse. E assim foi.

No começo a Patrícia Grande recebia tudo com desconfiança. Como se estivesse apenas protelando. Mas com o correr do dia essa idéia foi se dissipando. E a Patrícia Grande se dava conta de que sentia falta daquela companhia: quente, barulhenta, estranha... E de repente estava se aventurando por caminhos que não percorria desde a Ruptura.

Mas não quis pensar na Ruptura naquele dia. Preferiu se encantar com a forma como a Patrícia Pequena tinha conseguido sobreviver tanto tempo no limbo da inexistência, aprendendo coisas estranhas como a cortar estímulos de dor antes que eles chegassem ao cérebro.

E quando aquele dia louco terminou, a Patrícia Grande deixou-se conduzir para a cama sem resistência. E fingiu dormir só para poder ver a outra se afastar assim que se certificasse – da sua maneira torta – que havia deixado tudo bem por ali.

E a Patrícia Grande se deixou ficar, com a cabeça deitada no travesseiro repassando, por trás dos olhos, as imagens daquele dia. E se espantou ao ver que elas eram lindas. E pensou que, de fato, era bobagem ficar chateada quando se há tanta Beleza no mundo. E dormiu feliz por ter percebido isso sem que seu rosto estivesse imerso em uma poça de sangue. 

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