"É que ela sentia falta de encontrar-se consigo mesma e sofrer um pouco é um encontro."
Quando abriu os olhos pela manhã, foi exatamente como se
tivesse chutado a beirada da cama com o dedo mínimo do pé. Ficou ali, por
alguns segundos, entregue à espera mais injusta que existe. Porque quando você
chuta a beirada da cama com o dedo mínimo do pé, a dor (insuportável dor nossa
de cada dia) demora alguns instantes para percorrer a espinha e estimular seu
cérebro. E tudo o que você pode fazer é esperar. Esperar doer.
Mas a dor não veio. Como se alguém tivesse cortado a espinha
com uma tesoura. Arregalou os olhos e se assustou ao se dar conta de que o
estímulo tinha sido realmente cortado por alguém. E não pôde conter a surpresa
de se deparar com a Patrícia Pequena ali parada. Com uma tesoura na mão.
Dias atrás ela tinha aparecido. Na verdade, tinha sido
surpreendida espreitando como um bicho. Clandestina como ela sempre sonhara
ser. Mas a Patrícia Grande não tinha feito muito caso dela. Ao contrário, tinha
tentando fingir não ter visto nada e quando foi surpreendida, afugentou a outra
com uma hostilidade branda e desnecessária.
Mas naquela manhã a Patrícia Grande tinha batido o dedinho
na quina da cama. E ainda não doía. Então ela fez aquilo que perecia
impossível: estendeu sua mão e deixou que a Patrícia Pequena a segurasse com
sua pequena mão quente. E despindo-se daquele peso transparente que costumava
levar consigo, a Patrícia Grande deixou-se conduzir sem mais perguntas. Naquele
dia fariam tudo exatamente como a Patrícia Pequena quisesse. E assim foi.
No começo a Patrícia Grande recebia tudo com desconfiança.
Como se estivesse apenas protelando. Mas com o correr do dia essa idéia foi se
dissipando. E a Patrícia Grande se dava conta de que sentia falta daquela
companhia: quente, barulhenta, estranha... E de repente estava se aventurando
por caminhos que não percorria desde a Ruptura.
Mas não quis pensar na Ruptura naquele dia. Preferiu se
encantar com a forma como a Patrícia Pequena tinha conseguido sobreviver tanto
tempo no limbo da inexistência, aprendendo coisas estranhas como a cortar
estímulos de dor antes que eles chegassem ao cérebro.
E quando aquele dia louco terminou, a Patrícia Grande
deixou-se conduzir para a cama sem resistência. E fingiu dormir só para poder
ver a outra se afastar assim que se certificasse – da sua maneira torta – que
havia deixado tudo bem por ali.
E a Patrícia Grande se deixou ficar, com a cabeça deitada no
travesseiro repassando, por trás dos olhos, as imagens daquele dia. E se
espantou ao ver que elas eram lindas. E pensou que, de fato, era bobagem ficar
chateada quando se há tanta Beleza no mundo. E dormiu feliz por ter percebido
isso sem que seu rosto estivesse imerso em uma poça de sangue.
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