Houve um tempo em que o Desejo era só desejo. Em estado
bruto. E puro como só o desejo bruto consegue ser. E de tão puro misturava-se
facilmente a qualquer outra coisa e assumia a forma dela. Assim, independente
do que se parecesse, era, no fundo, só o Desejo.
Depois veio a Saudade. E a Saudade era firme, resoluta e,
sobretudo, palpável. A Saudade parecia saudade, tinha gosto de saudade e
cheirava a saudade. Era uma presença sólida, pessoal. A Saudade era corpórea e
voluntariosa. E existia por si só com uma independência que o desejo
desconhecia.
E quando tudo parecia em seu lugar, surgiu essa Saudade
Desejo. Ou esse Desejo que é feito com a matéria de que é feita a saudade. E
não se trata de nada impalpável embora não tenha forma ou volume. É como um
fantasma de um homem que morreu. Mas que existiu, nasceu, cresceu, amou e
morreu. E deixou de existir, como os homens que morrem. E continuou existindo
como os homens que morrem.
Como Saudade, machuca agora, mas se conforta com o que foi
ontem.
Como o Desejo, inquieta e perturba, mas colore com esperança
o amanhã.
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